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Entre mãos e gerações, saberes das parteiras tradicionais atravessam o tempo no Brasil — Ministério da Cultura



Maria Fernanda da Silva tinha 12 anos quando uma mulher chegou à casa de sua mãe, no interior de Pernambuco, para dar à luz. Vinha de um sítio no alto de uma serra e já conhecia bem aquele caminho: outros filhos haviam nascido pelas mãos de Zefinha Parteira. Mas, naquele dia, Zefinha não estava. Tinha saído para atender outro parto.
A menina ficou com medo, mas foi a própria parturiente quem a encorajou, lembrando que Maria Fernanda já havia acompanhado a mãe em outros nascimentos. “Ela dizia que eu sabia fazer, porque já tinha acompanhado minha mãe em outros partos. E foi assim que fiz o meu primeiro parto, aos 12 anos”, recorda.
Décadas depois, a história daquela menina ajuda a compreender um saber que atravessa gerações e diferentes territórios brasileiros. Em 9 de maio de 2024, o Ofício, Saberes e Práticas das Parteiras Tradicionais do Brasil foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e inscrito no Livro de Registro dos Saberes.
De abrangência nacional, o reconhecimento contempla conhecimentos e práticas presentes nas cinco regiões do país e preservados em diferentes contextos sociais e culturais. São mulheres que acompanham outras mulheres durante a gestação, o nascimento e o pós-parto, articulando conhecimentos tradicionais, experiência prática, vínculos comunitários e formas próprias de cuidado.
Um saber que passa de mulher para mulher
Na família de Maria Fernanda, o conhecimento ganhou continuidade pelas mãos de três mulheres. A primeira foi sua mãe, Zefinha Parteira, que aprendeu o ofício a partir da própria experiência. Foi observando a mãe que Maria Fernanda e a irmã mais nova aprenderam a partejar. “Venho, sim, de uma família de parteiras tradicionais. Aprendi a fazer partos com minha mãe, e minha irmã caçula também é parteira. Nós duas aprendemos com ela”, conta.

Foto: Arquivo Pessoal

A trajetória das três mulheres ajuda a revelar uma das características desse patrimônio cultural. De acordo com os estudos que subsidiaram o registro pelo Iphan, os conhecimentos das parteiras tradicionais são transmitidos principalmente pela experiência, pela observação e pela convivência, em ambientes familiares e comunitários. Também se transformam e se ampliam nas trocas entre as próprias parteiras.
Esse repertório assume diferentes formas pelo Brasil. Conforme a região e a comunidade, pode incluir massagens, banhos, uso de plantas, rezas, palavras de conforto e outros cuidados durante a gestação, o parto e o pós-parto. O ofício está presente tanto em áreas rurais quanto urbanas, além de comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas.
Mas o cuidado não termina com o nascimento. A relação construída com a gestante muitas vezes se estende à criança e à família, fortalecendo vínculos de confiança e solidariedade dentro das comunidades. Para Maria Fernanda, essa dimensão é parte essencial do ofício.
“A parteira não chega apenas para fazer o parto e ir embora. Ela cuida daquela família. Ela orienta, escuta, aconselha. Às vezes, é psicóloga, chega a ser advogada. Atua em várias questões dentro daquela família, sempre por meio da arte do cuidar”, afirma.
Maria Fernanda também é enfermeira, mas é pela tradição familiar que prefere se apresentar. “Eu sou Maria Fernanda, filha de Zefinha Parteira. Sou parteira tradicional e sou enfermeira, mas sempre me apresento dessa forma: sou parteira, filha de parteira e irmã de parteira também.”
Para ela, essa identidade carrega também o sentido de continuidade de uma prática que ultrapassa sua própria família. “É mulher cuidando de mulher, dando a assistência de que ela precisa. Essa tradição faz parte da nossa cultura e da nossa herança”, destaca.
Patrimônio Cultural do Brasil
O processo de reconhecimento do Ofício, Saberes e Práticas das Parteiras Tradicionais do Brasil teve início a partir de pedido de registro apresentado em 2011. A instrução técnica reuniu pesquisas, documentação e relatos sobre as diferentes formas de exercer e transmitir o ofício. O trabalho de campo que subsidiou o processo incluiu parteiras de Pernambuco, Bahia, Maranhão, Amazonas, Amapá e Goiás.
Em maio de 2024, o Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural aprovou por unanimidade o registro. Com a decisão, o ofício foi inscrito no Livro de Registro dos Saberes, destinado aos conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades.
O reconhecimento de um bem de natureza imaterial também prevê ações voltadas à sua salvaguarda. No caso das parteiras tradicionais, entre as diretrizes apontadas estão o fortalecimento das associações e redes de parteiras, o mapeamento de grupos em diferentes regiões, a ampliação das pesquisas e da documentação e a transmissão e difusão desses conhecimentos.
Para Maria Fernanda, parte dessa dimensão pode ser compreendida no instante em que uma nova vida chega e encontra as mãos de uma parteira.
“Costumo dizer que as mãos das parteiras são abençoadas. É um privilégio poder tocar aquele bebê, ser uma das primeiras pessoas a segurá-lo e depois entregá-lo à mãe e à família”.
São também essas mãos que mantêm viva uma história transmitida entre mulheres e comunidades ao longo de gerações.
“Trazemos em nossas mãos a tradição do partejar e a nossa ancestralidade. Durante muito tempo, estivemos na obscuridade, mas hoje conseguimos dar visibilidade à nossa categoria com o reconhecimento. Somos mulheres que trabalham com o parto desde a antiguidade. A sociedade precisa nos reconhecer como mulheres que trazem a ancestralidade em suas mãos”, conclui.



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