Em Betim, o Carnaval começa antes do brilho da avenida. Ele nasce nos encontros semanais, nos ensaios atentos e na formação de quem transforma talento em oportunidade. É nesse contexto que a Casa Cultural Dona Antônia abriu inscrições para oficinas gratuitas de passistas por meio do projeto Arte na Porta, iniciativa que prepara novos integrantes para a Unidos da Dona Antônia no Carnaval 2027.
A ação é viabilizada com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, que destinou R$ 70 mil ao projeto. Em Minas Gerais, a política já apresenta resultados expressivos. No primeiro ciclo, entre 2023 e 2024, estados e municípios mineiros receberam R$ 294,84 milhões e executaram integralmente os recursos. Todos aderiram ao segundo ciclo e estão aptos a novos repasses, ampliando o alcance das políticas culturais em todo o estado.
Em Betim, o investimento garante estrutura, equipe técnica e continuidade das atividades ao longo do ano. A proposta surgiu a partir da escuta da própria comunidade. “O Arte na Porta nasce de uma realidade muito concreta do território. Existe talento e desejo de participação cultural em Betim, mas faltam caminhos acessíveis, contínuos e próximos de casa para formação e desenvolvimento”, afirma Sérgio Martins, cofundador e CEO da Casa Cultural e presidente da escola de samba.
A instituição já desenvolvia ações formativas, mas percebeu a necessidade de organizar um percurso mais estruturado para quem deseja atuar no campo cultural. “Percebemos que precisávamos ampliar o acesso para jovens e moradores que não conseguem se deslocar ou pagar por formações e, ao mesmo tempo, organizar uma trilha formativa que conecte iniciação, aprimoramento e oportunidade real de atuação no Carnaval e em outras frentes culturais”, relata.
Sustentar essa estrutura ao longo de todo o ano exige planejamento e estabilidade. Nesse ponto, o apoio da Aldir Blanc foi determinante para consolidar a iniciativa. “O apoio financeiro permite sair de um modelo baseado apenas na boa vontade e no improviso para um modelo de planejamento e entrega contínua. Conseguimos manter equipe, metodologia e regularidade das atividades, o que dá segurança aos participantes e melhora a qualidade das ações”, explica Sérgio Martins.
Para a coordenadora do Escritório Estadual do Ministério da Cultura em Minas Gerais, Ana Tereza Melo Brandão, a política representa um marco para o setor cultural no estado. “A Política Nacional Aldir Blanc é uma política estruturante, e a adesão dos nossos 853 municípios vai garantir fomento para todas as cidades mineiras. Isso nos coloca em uma condição rara e histórica para consolidar nosso sistema nacional de cultura e desenvolver nosso setor cultural”, afirma.
Aulas e inscrições
As aulas de preparação de passistas começam em 9 de março, com encontros às segundas-feiras, às 19h, para pessoas a partir de 15 anos. A formação será conduzida por Mari Oliver, rainha de bateria da escola, educadora social, artesã e figurinista, ao lado da musa Paty Ramos. Em março, também serão abertas turmas de percussão para fortalecer a Bateria Teco Martins.
Foto: Divulgação
As inscrições permanecem abertas de forma contínua. A Casa Cultural mantém fila de espera organizada para dimensionar a demanda e subsidiar a ampliação de vagas e a captação de novos apoios.
Formação que transforma
Na quadra, a formação ultrapassa a repetição de passos. Entre espelhos, marcações no chão e o som da bateria ao fundo, o que se constrói ali é também pertencimento. Mari Oliver conhece esse percurso de dentro. “Ocupar o posto de rainha de bateria da Unidos da Dona Antônia tem um significado muito profundo para mim. Não é só representar uma escola, é representar a minha própria transformação. Foi aqui que algo gigantesco despertou dentro de mim, a artista, a criadora, a mulher que se reinventou”, afirma.
Para ela, a representatividade abre caminhos para outras mulheres da comunidade. “Representar Betim nesse espaço de destaque é uma honra que carrego com muito amor e responsabilidade. Como mãe, esposa e artista, eu sei o quanto precisei romper barreiras internas para chegar até aqui. Estar à frente da bateria mostra que nós, mulheres, podemos ocupar qualquer lugar sem deixar de ser quem somos”, destaca.
Foto: Acervo pessoal
À frente das oficinas, Mari leva essa experiência para a formação das novas passistas. “Assumir esse papel formativo é muito especial. Não é apenas ensinar passos, é ajudar outras mulheres a descobrirem sua força, autoestima e pertencimento dentro do samba. As oficinas serão um espaço de acolhimento e crescimento”, afirma.
A técnica é trabalhada com rigor, mas acompanhada de confiança e identidade. “Para uma passista estar preparada para a avenida, a técnica é fundamental, base, ritmo, resistência e consciência corporal. Mas tão importante quanto isso é se sentir confiante e poderosa, porque a avenida pede presença, entrega e verdade”, completa.
Os impactos do projeto também aparecem fora da quadra. “A transformação vai muito além da técnica. Observamos aumento da autoestima e do sentimento de pertencimento, desenvolvimento de disciplina e compromisso com o grupo, além do fortalecimento de habilidades como respeito, cooperação e liderança. A cultura atua como proteção social, oferecendo ocupação saudável do tempo e criando uma rede de apoio”, afirma Sérgio Martins.
Ele destaca ainda que o Carnaval integra uma cadeia produtiva estratégica para a economia criativa. “O Carnaval é um setor cultural com cadeia produtiva real. As oficinas funcionam como porta de entrada para esse mercado ao desenvolver técnica, repertório e postura profissional. Muitos participantes passam a atuar em eventos locais e podem construir trajetória no campo cultural”, relata.
De olho em 2027
Com o próximo desfile no horizonte, o trabalho segue de forma constante. O que se vê na avenida é resultado de meses de construção. “Após o resultado apresentado no Carnaval 2026, a expectativa é evoluir com mais consistência e base técnica. Um bom Carnaval se constrói o ano inteiro, e é isso que estamos fazendo”, afirma Sérgio.
Mari compartilha da mesma expectativa. “Espero ver passistas mais preparadas tecnicamente e, principalmente, mais confiantes e poderosas. Essa base construída ao longo do ano vai refletir em uma avenida mais bonita, organizada e com mulheres que sabem exatamente quem são e o espaço que ocupam”, conclui.
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