Ao longo de três minutos, o cineasta Wera Djekupé saudou o público. Ao final, pergunta: “E então, todos entenderam?”. O questionamento pode parecer estranho, mas a explicação é a escolha da língua utilizada por ele. O Guarani. “Eu falo minha língua todos os dias com o meu povo. Isso é cultura viva”, completa ele.
Wera Djekupé, ou Marcelo Guarani em português, é o diretor de Caminhada Sagrada de Tatatxi Ywarete, filme escolhido para a sessão de abertura do Cine Teia nesta quinta-feira (21), no Sesc Vila Formosa, em Aracruz (ES). A obra integra a programação da 6ª Teia. O primeiro longa-metragem dirigido por um cineasta Guarani no estado conta com recursos da Lei Paulo Gustavo (LPG) e acompanha a trajetória da bisavó do cineasta, a líder indígena Tatatxi Ywarete. Durante mais de três décadas, ela percorreu o sul e o sudeste do Brasil em busca da “terra sem males” para seu povo. A travessia por diferentes territórios tornou-se, também, prova de resistência e preservação da memória de um povo.
“A gente quer eternizar a história dela, da caminhada, para que essa história não seja apagada da memória das pessoas, né? Porque a cultura tem que ser viva e ela é viva”, afirma o diretor.
Tatatxi Ywarete foi símbolo de resistência de sua comunidade ao proteger familiares e lutar contra grileiros que tentavam se apropriar das terras indígenas. “Na época,o governo era muito severo demais e seguia o sistema da ditadura militar. Ele pegou os indígenas e levou para Minas. Lá tinha um lugar semelhante a um presídio. E foi nesse caminho eu nasci. Eu cresci nesse lugar, mas como eu era criança, não entendia direito aquilo. Só depois que eu entendi a história”, detalha Wera Djekupé.
A bisavó conseguiu levar, um a um, os familiares para o Espírito Santo, sendo ela a última a deixar a “prisão” mineira para trás. “Aqui no Espírito Santo, ela se junta de novo com os Tupiniquim e aí começam a lutar. Até que ela faz a primeira demarcação de terra no estado”, completa o cineasta.
As gravações duraram cerca de um ano, movimentou anciões, gerou visitas a antigos territórios e trouxe aos jovens Guarani parte da memória de luta e conquista de seus ancestrais
Formação e memória
As gravações duraram pouco mais de um ano e movimentou anciões, gerou visitas a antigos territórios e trouxe aos jovens Guarani parte da memória de luta e conquista de seus ancestrais
Ainda na fase de pré-produção, uma oficina de fotografia e som capacitou cerca de 20 indígenas de todas as aldeias, que passaram a integrar a produção do filme, junto com técnicos não indígenas.
Cine Teia
Parceria entre a Secretaria do Audiovisual (SAV) e a Secretaria de Cidadania e Diversidade Cultural (SCDC) do Ministério da Cultura, o Cine Teia segue com programação até sábado (23).
Com objetivo de fortalecer a rede de pontos e pontões de cultura que atuam com o audiovisual integrado ao fazer comunitário e possibilitar que as políticas públicas vinculadas contribuam cada vez mais para o desenvolvimento social da comunidade, a preservação das memórias de mestres e mestras e a difusão da diversidade do Brasil nas telas, as obras são plurais e vindas de todo o país.
Após a exibição do documentário, diretor e convidados participaram de uma roda de conversa conduzida por Adriana
Durante o bate-papo, a plateia refletiu sobre a importância de preservar as tradições dos povos guarani, destacando a relação entre cultura e o cuidado com a floresta. Também foram abordados aspectos do processo de criação do filme, evidenciando um trabalho cuidadoso e comprometido com a valorização desses saberes.
O diretor ressaltou que a produção tem como objetivo aproximar os mais jovens das vivências e conhecimentos de seus antepassados, fortalecendo a conexão com a história do povo guarani. Já a diretora e a co-roteirista Fernanda Keretxu , autodeclarada como mulher indígena, destacou o impacto de conhecer essa cultura, especialmente pelo protagonismo das mulheres, que são ouvidas e reconhecidas em suas comunidades, como exemplifica a história de Tatatxi.
Teia Nacional
A 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura reúne agentes culturais, coletivos, mestres e mestras das culturas populares, povos tradicionais, representantes da sociedade civil e gestores públicos de todas as regiões do Brasil.
O evento é uma realização do Ministério da Cultura, do Governo do Estado do Espírito Santo, da Prefeitura de Aracruz e da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura (CNPdC), em parceria com o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), o Sesc, Unesco e o programa IberCultura Viva.
Programação
22/05/26 – sexta-feira Mesa da SAV: Audiovisual em Teia: Projetando um Brasil diverso nas telas Hora: 14h às 15h Local: Salão Domingos Martins (SESC Formosa – Aracruz/ES) Oficina Plataforma Tela Brasil – Perfil Rede Exibidora Hora: 15h às 17h30 Local: Salão Domingos Martins (SESC Formosa – Aracruz/ES)
Cine Teia (Sessão 02) Hora: 17h30 às 19h30 Local: Salão Madrid (SESC Formosa – Aracruz/ES) Sinopse: Exibição de curtas-metragens selecionados no Edital de Programação da 6ª Teia Nacional: Cidão (Dir. Alessandra Gama, Doc, 15’, GO, 2025, Livre) Amargo (Dir. Bruno Araujo, Fic, 11’, PE, 2025, Livre) Metamorfose (Dir. Henrique Lopes e Déia Fernandes, 15’, Experimental, MS, 2025, 12 anos) Quem Quer? (Dir. Célia Maracajá, 13’, Híbrido, PA, 2025, Livre) Terra Sonhada (Dir. Rita Oenning da Silva, 14’ Doc, SC, 2025, Livre) 23/05 – Sábado Premiação e Mostra Tesouros Vivos, Memória e Territórios – IberCultura Viva Horário: 11h às 12h30 Local: Salão Madrid (SESC Formosa – Aracruz/ES)
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