O bairro do Benguí, em Belém, recebe neste domingo (7) a inauguração do Mubenco — Museu Bengola em Cores de Graffiti, um museu a céu aberto formado por sete murais permanentes espalhados pelos conjuntos Xavante I, II e III. A iniciativa transforma a paisagem urbana da comunidade em uma galeria pública de arte contemporânea, com obras assinadas por artistas do Pará e do Maranhão.
A inauguração ocorre durante o Festival Bengola em Cores — Traços Cabanos, realizado na Praça Nossa Senhora das Vitórias, com entrada gratuita e programação cultural ao longo da tarde e da noite. O projeto conta com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, por meio do Edital de Fomento à Criação: Cultura Urbana e Periférica, do Ministério da Cultura e do Governo do Brasil.
Nesta primeira edição, participam os grafiteiros NSW, Negônica, Larissx, Mamacyta, Catatal, Mina Ribeirinha e WBS. Cada artista assina um mural com diferentes linguagens do graffiti, explorando letras, personagens, ancestralidade, cultura hip-hop, memória coletiva e vivências periféricas.
Para os curadores WBS Barros e Mina Ribeirinha, da Tinta Preta Produções, a criação do museu representa um marco para a arte urbana no Pará.
“A criação de um museu a céu aberto representa um marco para a arte urbana no Pará. Além de preservar e dar visibilidade às produções dos artistas, o espaço contribui para democratizar o acesso à arte e consolidar o graffiti como patrimônio cultural contemporâneo. O museu fortalece a cena local, estimula intercâmbios com artistas de outras regiões e transforma o Benguí em uma referência para quem deseja conhecer a produção de arte urbana amazônica”, afirma WBS.
Arte urbana, memória e território
O tema desta edição, Traços Cabanos, estabelece uma conexão entre a memória da Cabanagem, uma das principais revoltas populares da história do Pará, as lutas dos moradores do Benguí e as expressões contemporâneas da cultura urbana.
Segundo a curadoria, a produção do festival foi construída de forma colaborativa, envolvendo artistas, moradores, lideranças comunitárias e uma equipe dedicada à execução das ações. O processo incluiu planejamento das atividades, definição dos espaços de intervenção, mobilização dos participantes e articulação institucional.
“Como o projeto tem raízes no território desde 2016, a construção desta edição também se apoiou nas relações de confiança estabelecidas ao longo dos anos com a comunidade do Benguí e com a cena do graffiti paraense”, explica Mina Ribeirinha.
A programação foi pensada para reunir diferentes linguagens da cultura urbana e popular, com feira criativa, apresentações culturais, batalha de graffiti, sarau e shows musicais.
“A ideia é criar um espaço de convivência que contemple desde a produção visual do graffiti até a música, a literatura, o empreendedorismo criativo e as manifestações culturais da periferia. Ao reunir diversas expressões em um mesmo evento, o festival amplia o acesso à cultura e fortalece o intercâmbio entre artistas, coletivos e público”, destacam os curadores.
Cultura como ocupação positiva dos espaços públicos
O Mubenco é resultado da trajetória do projeto Bengola em Cores, desenvolvido pela Tinta Preta Produções, coletivo que promove intervenções artísticas, atividades educativas e ações culturais em espaços públicos do bairro.
Para a organização, a cultura urbana tem papel essencial na transformação social e no fortalecimento comunitário.
“Acreditamos que a cultura urbana é uma ferramenta poderosa de transformação social e fortalecimento comunitário. Quando ocupamos os espaços públicos com arte, cultura e participação cidadã, promovemos encontros, estimulamos o sentimento de pertencimento e contribuímos para a valorização dos territórios periféricos. O graffiti, em especial, tem a capacidade de ressignificar paisagens urbanas e contar histórias que muitas vezes não encontram espaço nos meios tradicionais”, pontua a curadora.
Ao longo dos anos, as ações do coletivo contribuíram para fortalecer a identidade cultural local, ampliar o envolvimento de jovens com atividades artísticas e valorizar espaços públicos que receberam intervenções.
“Também observamos o surgimento de novos artistas, o fortalecimento de redes colaborativas e o reconhecimento do Benguí como um importante polo de produção cultural e arte urbana em Belém. Essas transformações demonstram como a arte pode contribuir para a construção de vínculos e para a valorização da memória coletiva”, acrescenta WBS.
Foto: Divulgação
Política pública e descentralização da cultura
A iniciativa foi contemplada pela Política Nacional Aldir Blanc, mecanismo de fomento que tem ampliado o acesso a recursos públicos da cultura em diferentes territórios do país.
De acordo com os curadores, o recurso foi fundamental para garantir a realização desta edição do festival: “O recurso da Política Nacional Aldir Blanc foi fundamental para garantir a realização desta edição do festival, possibilitando a contratação de profissionais, aquisição de materiais, estruturação das atividades e remuneração dos artistas envolvidos. Mais do que financiar um evento, esse investimento fortalece a cadeia produtiva da cultura, amplia o acesso da população às ações culturais e reafirma a importância das políticas públicas para o desenvolvimento artístico e comunitário nos territórios periféricos”.
Para Aline Vieira, coordenadora de comunicação do Comitê de Cultura no Pará, a criação do Mubenco é estratégica para a democratização da cultura em Belém.
“O Comitê de Cultura do Pará entende a criação do Mubenco como uma ação extremamente estratégica para a democratização da cultura em Belém. O projeto fortalece o Benguí como território de produção artística, memória e pertencimento, transformando o espaço urbano em um grande equipamento cultural a céu aberto. Além disso, o museu reafirma a potência das periferias amazônicas enquanto espaços de criação contemporânea, valorizando artistas locais, a cultura hip-hop e as narrativas da comunidade”, avalia.
Aline também destaca que a Política Nacional Aldir Blanc tem sido essencial para garantir que recursos públicos cheguem a territórios historicamente invisibilizados: “Projetos como o Mubenco demonstram como o investimento direto na cultura periférica fortalece coletivos independentes, gera oportunidades econômicas, amplia a formação cultural e cria novas redes de mobilização social. A Aldir possibilita que agentes culturais das periferias consigam estruturar iniciativas permanentes, com impacto social, artístico e econômico no território”.
Periferia como lugar de inovação e protagonismo
O Comitê de Cultura do Pará iniciou diálogo com o projeto Bengola em Cores para construir parcerias em futuras ações de formação voltadas ao movimento Hip-Hop e às juventudes periféricas de Belém.
Segundo Aline Vieira, o papel do Comitê é atuar como ponte entre os fazedores de cultura e as ferramentas, editais e mecanismos de acesso às políticas públicas culturais.
“Estamos construindo uma relação importante com a produtora executiva do projeto, Mina, da Tinta Preta Produções, que realiza um trabalho na cidade, movimentando a juventude e fortalecendo as periferias através da cultura urbana, da arte e da ocupação criativa dos territórios”, diz.
Para ela, projetos como o Mubenco mostram como a cultura transforma espaços, fortalece pertencimentos e cria novas perspectivas para as comunidades. “A expectativa é que essa iniciativa se torne referência para outros bairros de Belém e também para municípios de todo o Brasil, mostrando que a periferia é lugar de produção artística, memória, inovação e protagonismo cultural”, idealiza.
A coordenadora ressalta ainda que iniciativas de arte urbana geram impactos sociais, simbólicos e econômicos importantes para as comunidades.
“Elas fortalecem a autoestima coletiva, estimulam o pertencimento, ocupam os espaços públicos de forma positiva e ajudam a combater estigmas associados às periferias. Além disso, movimentam a economia criativa, geram oportunidades para artistas e empreendedores locais e contribuem para processos de formação cultural de jovens e crianças”, completa.
Programação gratuita
Além da inauguração dos murais, o Festival Bengola em Cores terá feira criativa, apresentações culturais, batalha de graffiti, sarau e shows musicais.
A programação começa às 15h, com feira criativa. Às 16h, o público poderá acompanhar a apresentação do Grupo Paranativo. Em seguida, às 17h, ocorre a Batalha de BOMB, competição que reúne grafiteiros produzindo obras ao vivo.
Às 18h, será realizado o Sarau em Movimento, com poesia, literatura, teatro e manifestações da cultura afro e periférica. A programação musical começa às 19h, com o DJ Daniel Moraes. Às 20h, sobe ao palco a rapper paraense Bruna BG. O encerramento será às 21h, com o cantor Lima Neto, conhecido pelo repertório de brega retrô e brega marcante.
ServiçoInauguração do MUBENCO — Museu Bengola em Cores de GraffitiData: domingo, 7 de junhoLocal: Praça Nossa Senhora das Vitórias, bairro do Benguí, em BelémEntrada: gratuita
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