O Ministério da Cultura (MinC), por meio da Secretaria de Economia Criativa, realizou nesta segunda-feira (16), no Edifício Gustavo Capanema, no Rio de Janeiro, o Seminário Internacional: Caminhos para Fomento e Financiamento em Economia Criativa. O evento reuniu, ao longo de todo o dia, representantes do governo, instituições financeiras, organismos multilaterais, pesquisadores, especialistas e empreendedores para debater os desafios, as oportunidades e as alternativas para ampliar o financiamento e o fomento à economia criativa brasileira.
Pela manhã, a secretária de Economia Criativa do MinC, Cláudia Leitão, destacou a necessidade de ampliar a compreensão sobre o papel do investimento público e privado no fortalecimento do setor.
“O que queremos nesta conversa é ampliar a nossa visão sobre fomento. Queremos compreender qual é a tarefa das organizações públicas e privadas quando pensamos em investimentos para fortalecer a economia criativa”, afirmou.
Segundo a dirigente, os desafios atuais exigem uma visão sistêmica dos processos criativos e culturais. “Quando falamos de economia criativa, precisamos pensar em uma inovação que atravesse todos os ecossistemas: desde a criação, passando pela produção, distribuição, difusão e consumo, até chegar à exportação, ao registro, à memória e à preservação. O conceito de economia criativa se tornou mais complexo ao longo do tempo, e o conceito de ecossistema é fundamental para compreendermos de que forma o investimento público e privado pode, de fato, fomentar a inovação nos diversos ecossistemas culturais e criativos sobre os quais vamos falar ao longo do dia”, destacou.
Realizado em parceria com o Sebrae Nacional e com apoio do Instituto BR Arte, o seminário busca construir reflexões e propostas capazes de ampliar as possibilidades de acesso a recursos para os setores culturais e criativos do país.
Representando o Sebrae Nacional, a analista de Políticas Públicas Cynthia Uchôa ressaltou a trajetória de cooperação entre a instituição e o Ministério da Cultura na construção de políticas voltadas ao fortalecimento do empreendedorismo cultural e criativo.
“Essa parceria entre Sebrae Nacional e MinC é estratégica para a promoção das políticas públicas de cultura, para o fortalecimento do empreendedorismo cultural e criativo e para a construção de soluções mais integradas para os territórios”, salientou.
Ela lembrou que um dos resultados desse trabalho conjunto é a realização do Fórum Brasil Criativo e Seminário da Rede de Cultura e Economia Criativa, que percorre as todas as regiões do país, que encerra o ciclo amanhã (17), também no Rio de Janeiro. Iniciativas que irão contribuir com subsídios na elaboração do Plano Nacional de Economia Criativa.
“Isso é muito relevante porque demonstra que fomento e financiamento não podem ser pensados de forma isolada. Eles precisam dialogar com formação, governança, redes locais, assistência técnica, acesso a mercado e capacidade institucional instalada nos territórios. Quando falamos em caminhos para o fomento e o financiamento da economia criativa, estamos falando também em criar condições para que empreendedores culturais e criativos consigam se estruturar, acessar oportunidades, ampliar sua sustentabilidade econômica e se conectar a redes de cooperação, inovação e mercado”, explicou.
Experiências internacionais e desafios do financiamento
A programação da manhã foi composta por dois painéis: O Papel do Investimento Público e Privado para Impulsionar a Inovação e a Economia Criativa e Caminhos do Investimento e Financiamento em Economia Criativa’.
Durante o primeiro painel, o ex-ministro da Cultura de Buenos Aires e ex-secretário de Economia Criativa do Ministério da Cultura da Argentina, Enrique Avogadro, apresentou experiências internacionais e modelos públicos e privados de apoio ao desenvolvimento de ambientes criativos sustentáveis.Ao abordar os desafios enfrentados pelo setor, Avogadro destacou desafios que empreendedores criativos encontram para acessar crédito tradicional.
“Nenhum instrumento sozinho basta. E como se financia aquilo que não tem garantia? Empresas criativas não têm ativos tangíveis; seu valor é difícil de avaliar com as ferramentas tradicionais. As instituições bancárias não estão preparadas para financiar o intangível”, observou.
O especialista citou o caso da Coreia do Sul como exemplo de política pública estruturada para o desenvolvimento da economia criativa. Segundo ele, o país construiu um sistema integrado envolvendo certificação de empresas criativas, fundos garantidores, linhas de crédito e capital de risco.“O dinheiro público não substituiu o privado. Ele acendeu o mercado. Funcionou como catalisador de uma indústria privada muito maior”, comentou.
Para Avogadro, a principal lição é que o financiamento da economia criativa precisa estar articulado a uma visão de longo prazo. “Quando se sustenta ao longo do tempo e se articula a uma visão de país, deixa de ser gasto cultural e se transforma em política de desenvolvimento”.
Instrumentos híbridos e novas fontes de recursos
A economista do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciane Gorgulho, trouxe ao debate reflexões sobre os mecanismos necessários para ampliar o acesso a recursos pelos empreendimentos criativos.
“Precisamos de um cardápio de instrumentos. E não apenas crédito, não apenas patrocínio, mas instrumentos híbridos”, defendeu.
Entre as alternativas, a economista destacou modelos de participação em resultados e a necessidade de estruturar mecanismos capazes de atender perfis de empreendimentos que não conseguem acessar o crédito convencional.
“Hoje há orçamento para crédito tradicional. O BNDES opera bilhões de reais. Mas esse crédito tradicional não está chegando a esse perfil de empresa. Para chegar a esse perfil, precisamos de fontes de recursos que permitam trabalhar com subvenção, equalização, participação em resultados e até fundos garantidores”, explicou.
Segundo Luciane, a construção de fundos que reúnam diferentes fontes de recursos pode representar um legado importante para o fortalecimento da economia criativa nos próximos anos. “Temos a oportunidade de construir, ainda este ano, um legado que possa continuar contribuindo para a economia da cultura e para a economia criativa nos próximos anos”.
Instituições financeiras apresentam oportunidades para o setor
A programação também contou com um painel reunindo representantes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), do Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE) e do Banco do Brasil, que apresentaram instrumentos já disponíveis para financiamento e apoio aos empreendedores da economia criativa.
Representando o Banco do Brasil, o especialista em projetos Cláudio de Mattos Brito destacou que a cultura ocupa papel estratégico para a instituição. “O Banco do Brasil é um grande apoiador da cultura e, para nós, cultura não é apenas patrocínio. É acreditar no poder de transformação da cultura e na sua capacidade de construir um país melhor”, afirmou.
Ao abordar os mecanismos de apoio ao setor, ele ressaltou a importância dos editais como ferramenta de democratização do acesso aos recursos e chamou atenção para o desafio de ampliar a formação de públicos.
“Como sair da nossa bolha? Como fazer cultura para pessoas que ainda não foram fisgadas pela cultura? Como despertar o interesse de um adolescente de 14 anos para visitar uma exposição?”, questionou.
Brito também defendeu o fortalecimento da formação dos agentes culturais e da gestão dos empreendimentos criativos. “Quando falamos de cultura, também estamos falando de empreendedorismo, especialmente no contexto da economia criativa.”
Para ele, a ampliação das oportunidades para o setor depende da articulação entre diferentes atores públicos e privados. “Ninguém faz isso sozinho. Nem os bancos, nem o Ministério da Cultura, nem o Governo do Brasil, nem os governos estaduais. Não existe recurso capaz de sustentar sozinho toda a riqueza cultural que temos espalhada pelo país. Por isso, precisamos construir conexões.”
Encerrando sua participação, o especialista propôs uma reflexão sobre o posicionamento dos projetos culturais dentro da economia criativa. “Precisamos pensar os projetos culturais também como produtos. Isso não diminui a cultura. Pelo contrário. A cultura forma cidadãos, fortalece identidades e constrói um país. Mas, dentro da economia criativa, ela também precisa ser pensada como produto”.
Além dos debates com especialistas e representantes de instituições financeiras, o seminário conta com o espaço Economia Viva: Inspirações Criativas, dedicado à apresentação de experiências concretas de empreendedores que construíram trajetórias sustentáveis por meio de mecanismos de financiamento, fomento e inovação. Entre os convidados está Saulo Barreto, coordenador do The Human Project, iniciativa voltada à superação da pobreza no interior de Sergipe.
O Seminário Internacional Brasil Criativo: Caminhos para Fomento e Financiamento em Economia Criativa aconteceu ao longo de todo o dia, com transmissão ao vivo pelo canal do Ministério da Cultura no YouTube, permitindo que gestores, empreendedores, pesquisadores e agentes culturais de todo o país acompanhassem os debates e as experiências apresentadas durante o evento.
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